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sábado, 15 de junho de 2013

Estudo das leis morais - Parte 5: A lei de conservação

Hoje seguiremos nosso estudo das leis morais com a lei de conservação. Normalmente eu destaco as principais questões, mas neste caso as questões foram todas tão pertinentes que coloquei praticamente todas. Após a leitura delas, seguirá o habitual comentário.

702. O instinto de conservação é uma lei da Natureza?

— Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o seu  grau de inteligência; nuns é puramente mecânico e noutros é racional.


703. Com que fim Deus concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação?

— Porque todos devem colaborar nos desígnios da Providência. Foi por isso que Deus lhes deu a necessidade de viver. Depois, a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres; eles o sentem instintivamente, sem disso se aperceberem.

704. Deus, dando ao homem a necessidade de viver, sempre lhe forneceu os meios para isso?

— Sim, e se ele não os encontra é por falta de compreensão. Deus não podia  dar ao homem a necessidade de viver sem lhe dar também os meios. É por isso que faz a terra produzir de maneira a fornecer o necessário a todos  os seus habitantes, pois só o necessário é útil; o supérfluo jamais o é.

705. Por que a terra nem sempre produz bastante para fornecer o necessário ao homem?

— E que o homem a negligencia, o ingrato, e no entanto ela é uma excelente mãe. Freqüentemente ele ainda acusa a Natureza pelas conseqüências da sua imperícia ou da sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse contentar-se. Se ela não supre a todas as necessidades é porque o homem emprega no supérfluo o que se destina ao necessário. Vede o árabe no deserto como encontra sempre do que viver, porque não cria necessidades fictícias. Mas quando metade dos produtos é desperdiçada na satisfação de fantasias, deve o homem se admirar de nada encontrar no dia seguinte e tem razão de se lastimar por se achar desprevenido quando chega o tempo de escassez? Na verdade, eu vos digo que não é a Natureza a imprevidente, é o homem que não sabe regular-se.


706. Como bens da terra devemos entender apenas os produtos do solo?

— O solo é a fonte primeira de que decorrem todos os outros recursos, porque esses recursos, em, última instância, são apenas uma transformação dos produtos do solo. É por isso que devemos entender pelos bens da terra tudo quanto o homem pode gozar nesse mundo.

707. Os meios de subsistência faltam freqüentemente a certos indivíduos, mesmo em meio da abundância que os cerca; a que se deve ligar esse fato?

— Ao egoísmo dos homens que nem sempre fazem o que devem; em seguida, e o mais freqüentemente, a eles mesmos. Buscai e achareis; estas palavras não querem dizer que seja suficiente olhar para a terra a fim de encontrar o que se deseja, mas que é necessário procurar com ardor e perseverança, e não com displicência, sem se deixar desanimar pelos obstáculos que muito freqüentemente não passam de meios de pôr à prova a vossa constância, a vossa paciência e a vossa firmeza. (Ver item 534.)

Comentário de Kardec: Se a civilização multiplica as necessidades, também multiplica as fontes de trabalho e os meios de vida; mas é preciso convir que nesse sentido ainda muito lhe resta a fazer. Quando ela tiver realizado a sua obra. ninguém poderá dizer que lhe falte o necessário, a menos que o falte por sua própria culpa. O mal, para muitos, é viverem uma vida que não é a que a Natureza lhes traçou; é então que lhes falta a inteligência para vencerem. Há para todos um lugar ao sol, mas com a condição de cada qual tomar o seu e não o dos outros. A Natureza não poderia ser responsável pelos vícios da organização social e pelas conseqüências da ambição e do amor-próprio.                      

Seria preciso ser cego, entretanto, para não se reconhecer o progresso que nesse sentido têm realizado os povos mais adiantados.

Graças aos louváveis esforços que a Filantropia e a Ciência, reunidas, não cessam de fazer para a melhoria da condição material dos homens, e malgrado o crescimento incessante das populações, a insuficiência da produção é atenuada, pelo menos em grande parte, e os anos mais calamitosos nada têm de comparável aos de há bem pouco tempo. A higiene pública, esse elemento tão essencial da energia e da saúde, desconhecido por nossos pais, é objeto de uma solicitude esclarecida; o infortúnio e o sofrimento encontram lugares de refúgio; por toda parte a Ciência é posta em ação, contribuindo para o acréscimo do bem-estar. Pode-se dizer que atingimos a perfeição? Oh!, certamente que não. Mas o que já se fez dá-nos a medida do que pode ser feito, com perseverança, se o homem for bastante sensato para procurar a sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não nas utopias que o fazem recuar em vez de avançar.

708. Não há situações em que os meios de subsistência não dependem absolutamente da vontade do homem e a privação do necessário, até o mais imperioso, é uma conseqüência das circunstâncias?

— E uma prova freqüentemente cruel que o homem deve sofrer e à qual subia que seria exposto; seu mérito está na submissão à vontade de Deus, se a sua inteligência não lhe fornecer algum meio de sair da dificuldade. Se a morte deve atingi-lo, ele deverá submeter-se sem lamentar, pensando que a hora da verdadeira liberdade chegou e que o desespero do momento final pode fazê-lo perder o fruto de sua resignação.


709. Aqueles que em situações críticas se viram obrigados a sacrificar os semelhantes para matar a fome, cometeram com isso um crime? Se houve crime, é ele atenuado pela necessidade de viver que o instinto de conservação lhes dá?

— Já respondi, ao dizer que há mais mérito em sofrer todas as provas da vida com abnegação e coragem. Há homicídio e crime de lesa-natureza, que devem ser duplamente punidos.

711. O uso dos bens da Terra é um direito de todos os homens?                   

— Esse direito é a conseqüência da necessidade de viver. Deus não pode impor um dever sem conceder os meios de ser cumprido

712.Com que fim Deus fez atrativos os gozos dos bens materiais?

— Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e também para o provar na tentação.

712 – a) Qual o objetivo dessa tentação?

— Desenvolver a razão que deve preservá-lo dos excessos.

Comentário de Kardec: Se o homem não fosse instigado ao uso dos bens da Terra senão em vista de sua utilidade, sua indiferença poderia ter comprometido a harmonia do Universo. Deus lhe dá o atrativo do prazer que o solicita a realização dos desígnios da Providência. Mas, por meio desse mesmo atrativo, Deus quis prova-lo também pela tentação, que o arrasta ao abuso, do qual a sua razão deve livrá-lo.


713. Os gozos têm limites traçados pela Natureza?

— Sim, para vos mostrar o termo do necessário; mas pelos vossos excessos chegais até o aborrecimento e com isso vos punis a vós mesmos.

714.Que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento dos seus gozos?

— Pobre criatura que devemos lastimar e não invejar, porque está bem próxima da morte!

714 – a) É da morte física ou da morte moral que ele se aproxima?

— De uma e de outra.

Comentário de Kardec:  O homem que procura, nos excessos de toda espécie um refinamento dos gozos coloca-se abaixo dos animais, porque estes sabem limitar-se à satisfação de suas necessidades. Ele abdica da razão que Deus lhe deu para guia e quanto maiores forem os seus excessos maior é o império que concedeu a sua natureza animal sobre a espiritual. As doenças, a decadência, a própria morte, que são a conseqüência do abuso, são também a punição da transgressão da lei de Deus.


715. Como pode o homem conhecer o limite do necessário?

— O sensato o conhece por intuição e muitos o conhecem à custa de suas próprias experiências.

716. A Natureza não traçou o limite do necessário em nossa própria organização?

— Sim, mas o homem é insaciável. A Natureza traçou limites de suas necessidades na sua organização, mas os vícios alteraram a sua constituição e criaram para ele necessidades artificiais.

717. Que pensar dos que açambarcam os bens da Terra para se proporcionarem o supérfluo, em prejuízo dos que não têm sequer o necessário?

— Desconhecem a lei de Deus e terão de responder pelas privações que ocasionarem.


Comentário de Kardec: O limite entre o necessário e o supérfluo nada tem de absoluto. A civilização  criou necessidades que não existem no estado de selvageria, e os Espíritos que ditaram esses preceitos não querem que o homem civilizado viva como selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão colocar cada coisa em seu lugar. A civilização desenvolve o senso moral e ao mesmo tempo o sentimento de caridade que leva os homens a se apoiarem mutuamente. Os que vivem à custa das privações alheias exploram os benefícios da civilização em proveito próprio; não têm de civilizados mais do que o verniz, como há pessoas que não possuem da religião mais do que a aparência.

718. A lei de conservação obriga-nos a prover as necessidades do corpo?

— Sim, pois sem a energia e a saúde o trabalho é impossível.

719. O homem é censurável por procurar o bem-estar?

— O bem-estar é um desejo natural. Deus só proíbe o abuso, por ser contrário à conservação, e não considera um crime a procura do bem-estar, se este não for conquistado às expensas de alguém e se não enfraquecer as vossas forças morais nem as vossas forças físicas.

720. As privações voluntárias, com vistas a uma expiação igualmente voluntária, têm algum mérito aos olhos de Deus?

— Fazei o bem aos outros e tereis maior mérito.


720 – a) Há privações voluntárias que sejam meritórias?

Sim: a privação dos prazeres inúteis, porque liberta o homem da matéria e eleva sua alma. O meritório é resistir à tentação que vos convida aos excessos e ao gozo das coisas inúteis; é retirar do necessário para dar aos que o não têm. Se a privação nada mais for que um fingimento, será apenas uma irrisão.


721. A vida de mortificações no ascetismo tem sido praticada desde toda a Antiguidade e nos diferentes povos; é ela meritória sob algum ponto de vista?

— Perguntai a quem ela aproveita e tereis a resposta. Se não serve senão ao que a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísta, qualquer que seja o pretexto sob o qual se disfarce. Submeter-se a privações no trabalho pelos outros é a verdadeira mortificação, de acordo com a caridade cristã.

722. A abstenção de certos alimentos, prescrita entre diversos povos, funda-se na razão?

— Tudo aquilo de que o homem se possa alimentar, sem prejuízo para a sua saúde, é permitido. Mas os legisladores puderam interditar alguns alimentos com uma finalidade útil. E para dar maior crédito às suas leis apresentaram-nas como provindas de Deus.

723. A alimentação animal, para o homem, é contrária à lei natural?

— Na vossa constituição física, a carne nutre a carne, pois do contrário o homem perece. A lei de conservação impõe ao homem o dever de conservar as suas energias e a sua saúde para poder cumprir a lei do trabalho. Ele deve alimentar-se, portanto, segundo o exige a sua organização.

724. A abstenção de alimentos animais ou outros, como expiação é  meritória?                                                             

— Sim, se o homem se priva em favor dos outros, pois Deus não pode ver mortificação quando não há privação séria e útil. Eis porque dizemos que os que só se privam em aparência são hipócritas. (Ver item 720.)

725. Que pensar das mutilações praticadas no corpo do homem ou dos animais?

— A que vem semelhante pergunta? Perguntai sempre se uma coisa é útil. O que é inútil não pode ser agradável a Deus e o que é prejudicial lhe é sempre desagradável. Porque, ficai sabendo, Deus só é sensível aos sentimentos que elevam a alma para ele, e é praticando as suas leis, em vez de violá-las, que podereis sacudir o jugo de vossa matéria terrena.

726. Se os sofrimentos deste mundo nos elevam, conforme os suportamos, poderemos elevar-nos pelos que criarmos voluntariamente?

— Os únicos sofrimentos que elevam são os naturais, porque vêm de  Deus. Os sofrimentos voluntários não servem para nada, quando nada valem para o bem de outros. Crês que os que abreviam a vida através de rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de tantas seitas, avançam na sua senda ? Por que não trabalham, antes em favor dos seus semelhantes? Que vistam o indigente, consolem o que chora trabalhem pelo que está enfermo, sofram privações para o alívio dos infelizes e então sua vida será útil e agradável a Deus. Quando, nos sofrimentos voluntários a que se sujeita, o homem não tem em vista senão a si mesmo trata-se de egoísmo; quando alguém sofre pelos outros, pratica a caridade; são esses os preceitos do Cristo.

727. Se não devemos criar para nós sofrimentos voluntários que não são  de nenhuma utilidade para os outros, devemos, no entanto, preservar-nos dos que prevemos ou dos que nos ameaçam?

— O instinto de conservação foi dado a todos os seres contra os perigos e os sofrimentos. Fustigai o vosso Espírito e não o vosso corpo, mortificai vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo que se assemelha a uma serpente a vos devorar o coração e fareis mais pelo vosso adiantamento do que por meio de rigores que não mais pertencem a este século.


Deus não simplesmente nos joga na Terra entregues à nossa própria sorte: ele provê todos os meios para que possamos aqui viver e nos desenvolver, enquanto aqui estamos durante as nossas várias encarnações.

A Terra certamente teria recursos de sobra para dar conta de toda a atual população mundial, mas os homens com seu egoísmo preferem empilhar tesouros do que compartilhá-los com o seu próximo.

Não estamos falando aqui de regimes políticos e nem nada do tipo, estamos falando simplesmente da caridade. Imaginemos, se todos os homens de grandes posses usassem metade de sua fortuna para amparar aos necessitados. Será que ainda haveriam povos vivendo na miséria?

A lei de conservação nos traz uma perspectiva bem concreta sobre a vida material. Nos mostra que apesar de ter todas as ferramentas, o homem precisa pôr em uso suas faculdades para prover a sua subsistência, independente da posição que ocupe no mundo.

Porém o homem frequentemente perde-se na medida entre o necessário e o supérfluo, deixando-se levar pelos modismos e pela ostentação. Acaba vivendo num materialismo sem fim, pensando ser essa a grande felicidade.

Durante muitos anos eu mesmo tentava entender qual seria o ponto de equilíbrio entre a vida material e a vida espiritual: será que deveríamos virar monges? Será que teria problema em nos chafurdarmos em todos os prazeres da matéria?

Eis que aí entra o estudo espírita, sempre nos ensinando o caminho do bom-senso. Somos espíritos vivendo encarnados em um mundo completamente material. E isso por si só já nos é uma provação e um grande meio de aprendizado. É necessário buscar a nossa melhoria espiritual sem deixar a vida na matéria de lado. Mas como?

Parece complicado, mas não é. É difícil, mas simples. Procurando adquirir e aumentar as virtudes em nós mesmos diariamente, fazendo o bem e por consequência, tentar abandonar os vícios, os defeitos e o materialismo.

Não há problema em se possuir as coisas materiais. A vida moderna nos exige um certo grau de materialismo, onde coisas que não antes existiam, como celulares e computadores, por exemplo, hoje se fazem necessários até mesmo para o trabalho.

Isso não quer dizer que precisemos trocar de celular de 6 em 6 meses. Ou que precisemos comprar o modelo mais caro da loja, por pura ostentação.

Se formos analisar friamente, de que nos adianta tantas posses materiais, se podemos morrer amanhã mesmo? E o que levaremos dessa vida? Nossos tesouros? Não, levaremos somente as posses da alma, as virtudes e as boas obras.

Não deveríamos então, pela lógica, nos dedicarmos mais em adquirir as riquezas da alma em vez das riquezas da matéria, já que não sabemos o momento de nossa partida?

São essas reflexões que são necessárias para entendermos como viver uma vida na matéria mas sem materialismo. Parece ambíguo? Mas não é.

O que define o materialismo é justamente o apego que temos pelas coisas e prazeres materiais. Podemos viver em meio à matéria, mas sem estarmos apegados a ela.

Mas para que isso ocorra, precisamos mudar a nossa forma de olhar o mundo e de interagir com ele.



Para quem não tem O Livro dos Espíritos e quiser acessar online este capítulo, basta clicar aqui .

Veja as outras partes desse estudo:

Estudo das leis morais - Parte 1: A lei natural

Estudo das leis morais - Parte 2: A lei de adoração

Estudo das leis morais - Parte 3: A lei do trabalho

Estudo das leis morais - Parte 4: A leis de reprodução


Estudo das leis morais - Parte 6: A lei de destruição 

Estudo das leis morais - Parte 7: A lei de sociedade

Estudo das leis morais - Parte 8: A lei do progresso

Estudo das leis morais - Parte 9: A lei de igualdade 

Estudo das leis morais - Parte 10: A lei de liberdade 

Estudo das leis morais - Parte 11: A lei de justiça, amor e caridade

Estudo das leis morais - Parte 12: Perfeição moral (parte 1)


Estudo das leis morais - Parte 13: Perfeição moral (parte 2) [Final]

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